Carta aberta sobre a greve de docentes na UFRJ

27 Jun

A reunião da Associação de Pais, Alunos e Amigos do Colégio de Aplicação da UFRJ (APACAp UFRJ), no dia 24/6/2015, avaliou a participação do CAP UFRJ na Greve dos Docentes da UFRJ e seus desdobramentos na vida escolar.

Os pais apoiam as reivindicações dos docentes da UFRJ e rejeitam o instrumento da greve como primeira ação de reivindicação dos pontos de pauta. A vivência de uma greve não impacta igualmente os alunos de graduação, pós-graduação e os alunos do CAp. Por isso, a APACAp reitera, junto aos professores da UFRJ que em caso de confirmação do estado de greve, seja acolhido o pedido de excepcionalidade e preservação das atividades letivas no CAp UFRJ, considerando o perfil diverso dos estudantes – crianças e jovens de 6 a 17 anos – que, diferentemente dos estudantes universitários, não possuem autonomia para gerir suas rotinas.

A greve rompe o processo de aprendizagem, descontinua as práticas pedagógicas de maneira muito mais impactante no CAp, além de desequilibrar as famílias porque pais trabalhadores passam, subitamente,a indispor das garantias de segurança e proteção dos seus filhos.

Lembramos ainda as sucessivas interrupções que o CAp UFRJ sofreu ao longo dos últimos quatro anos, tendo passado  por duas greves seguidas, a última com duração de 110 dias.

As famílias capianas estão preocupadas e chamam a atenção de docentes e gestores  para aspectos importantes de práticas da greve no CAp:

1 – A comunicação doutrinária e parcial em defesa da greve de docentes 2015 que tem sido feita aos alunos do CAp por alguns professores dentro de sala de aula. O assunto deve ser tratado, mas o viés dogmático é evidente quando crianças de 6, 7 e 8 anos dão as mesmas respostas quando em casa são estimuladas a refletir sobre a greve, e atividades pedagógicas questionáveis são reportadas pelas crianças. Para que os alunos entendam o contexto que estão vivendo, as falas devem ser múltiplas. Citamos aqui a fala do recém-eleito reitor da UFRJ, Roberto Leher, professor da Faculdade de Educação, em entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo, em 23/05/2015: “…. professor que tem mirada de doutrinação é muito mal considerado na universidade. A meu ver, doutrinação é tentativa de passar uma visão de mundo de forma dogmática. A perspectiva de conhecimento doutrinário é contraditória com a Ciência, que tem de estar aberta a problemas, controvérsias”.

2 – A falta de  identificação clara na comunicação das decisões sobre a greve que são enviadas às famílias desde a assembleia local de docentes do CAp UFRJ, na noite de 22/06. No término da reunião e na manhã seguinte não havia nenhuma nota oficial no site do colégio. O acesso da APACAp e de pais à assembleia local de docentes foi vetado pelo comando de greve.  Os informes desde então têm chegado aos responsáveis, via agenda dos alunos do Ensino Fundamental I e II, sem timbre, sem data de emissão, com assinatura genérica “docentes do CAp UFRJ”, o que impossibilita o contato e, o pior, sem clareza de conteúdo. Esta dinâmica gera confusão e intranquilidade nas famílias e consequentemente nos alunos.

A APACAp pede à Direção Geral do CAp UFRJ e à ADUFRJ uma posição de independência entre as  duas esferas de representação junto às famílias, proporcionando clareza quanto à autoria de atitudes e deliberações. A distinção entre colégio e sindicato permitirá o melhor fluxo de comunicação na comunidade capiana, o que é fundamental quando lidamos com crianças e adolescentes.

Denunciamos o descaso do Estado Brasileiro com a educação pública; repudiamos o contingenciamento de verbas que o Governo Federal impõe à UFRJ e às universidades federais desde 2014, e como cidadãos rejeitamos a decisão do Estado de reduzir o Orçamento Federal para a Educação. O Poder Executivo deve garantir os investimentos em Educação, custeados pela coleta de impostos e os gestores públicos devem aplicar o dinheiro exercendo um orçamento participativo, transparente e idôneo.

Os pais e responsáveis pelos alunos do CAp  UFRJ estão na luta  por condições dignas de trabalho, de aprendizagem e de infraestrutura na UFRJ. O compromisso da nossa comunidade escolar – a Comunidade Capiana – é fazer parte da mudança que aproxime o Brasil da excelência na formação, pesquisa e extensão acadêmica no âmbito da universidade pública, democrática e acessível a todos os brasileiros.

Este não é um sonho. É a nossa missão!

Associação de Pais, Alunos e Amigos do CAp – APACAp

2 Respostas to “Carta aberta sobre a greve de docentes na UFRJ”

  1. Antonio Carlos Benício 6 de Julho de 2015 às 8:59 #

    Esperamos que a diligente comissão de ética e a Assembléia de hoje (06/07/2015) no CAP/UFRJ reconheça a excepcionalidade inerente ao CAP/UFRJ.

    Caso isso não ocorra um grupo de pais poderá de forma individualizada ou coletiva judicializar a reposição das aulas e buscar o reconhecimento da ilegalidade da greve.

    Estamos unidos da defesa dos direitos da criança e do adolescente a educação e que se sobrepõe ao direito irrestrito e ilimitado de greve.

  2. Vera Arnaud Xavier 8 de Julho de 2015 às 11:38 #

    Como avó de uma aluna do CAP UFRJ, e ex-aluna do CAP UERJ, aproveito este canal de comunicação para me manifestar:
    Muito me dói ver que mais uma vez as decisões de alguns grupos possam se sobrepor a todo o bom senso!
    Até muito pouco tempo atrás várias pessoas questionavam se o excelente desempenho dos alunos formados pelos CAPs poderia estar se devendo ao próprio processo de seleção no ingresso (de início para o “ginásio”, e há alguns anos para a antiga 1ª série). Conseguir uma vaga nestas escolas de excelência significava passar no que se apelidou de um “vestibulinho”. E para “preparar-se” para este concurso as crianças precisavam ter uma “base”, que escolas carentes, e famílias com maiores dificuldades não teriam conseguido oferecer-lhes. Em casa não tínhamos dinheiro, mas tínhamos uma mãe presente, buscando de todas as formas como “reforçar-nos” para uma seleção tão disputada.
    Atualmente temos, até o 9º ano, o ingresso no CAP UFRJ determinado por um sorteio. E este me parece a forma realmente democrática de acesso. Com um bom ambiente de ensino, professores bem preparados e extremamente dedicados, estaremos dando a chance de crianças vindas de diversos segmentos desta perversa divisão sócio econômica da sociedade crescerem em todos os sentidos. E esta diversidade acrescenta muito à formação destes pequeninos!
    Já tive, na porta da escola, contato com uma mãe que vem do Barreto (bairro de Niterói),e que dentro deste sonho de oferecer a seu filho uma educação de qualidade, não mede esforços para empreender esta “viagem” todos os dias.
    A quem interessa a suspensão das aulas?
    O que está sendo construído durante os dias paralisados? Os professores que defendem a greve estarão diariamente se reunindo para discutir as medidas necessárias para reverter-se a situação? Estarão na escola ou atuando junto àqueles que tem o poder de decidir?
    Ou estarão concretizando o sonho de vários segmentos da sociedade? Uma educação totalmente privatizada, onde o regime de “castas” pode se perpetuar?
    Trabalhei por décadas no serviço público. E, ainda bem que em serviços de Maternidade, onde não precisava ir “contra meus pares” para ter o direito de não parar! Talvez por ter sentido na pele que foi graças à escola pública (CAP UERJ) que pude ingressar numa Universidade também pública e contrair a lógica perversa deste “salve-se quem puder”. Mas também porque sempre acreditei que numa “queda de braço” entre o funcionalismo e os gestores, jamais deveríamos deixar que exatamente a população mais vulnerável seja a grande prejudicada…
    A quem interessa a suspensão das aulas destas crianças?
    Vera Xavier

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