Um raio-X do CAp-UFRJ

3 Dez
Única escola federal entre as 20 melhores do Rio no Enem 2012, colégio convive com a excelência do ensino e a carência de professores concursados. Unidade da Lagoa deve ser transferida para o Fundão, mas sem data prevista. (Reportagem de Luiza Barros em O Globo – 03/12/2013)

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A fachada do CAp-UFRJ, na Lagoa. Escola deve ser transferida para a Ilha do Fundão (Foto Guito Moreto)

Nem mesmo a greve de mais de cem dias na rede federal de ensino do país, no ano passado, foi suficiente para abalar o desempenho do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp-UFRJ) no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2012. A tradicional instituição do Rio foi a única federal a entrar no ranking carioca das 20 escolas com maior pontuação na prova objetiva do exame, na 15ª posição (57ª no ranking nacional), e é a segunda melhor escola gratuita da lista, atrás da Escola Sesc de Ensino Médio (8º lugar).

Um desempenho superior ao seu de 2011, quando ficou em 27º. O segredo do sucesso do colégio, que ainda precisa driblar uma crescente carência de professores concursados e uma infraestrutura limitada e, em busca de mais espaço, deve se mudar da Lagoa para a Ilha do Fundão , está tanto em sua integração com a universidade quanto na ênfase em uma formação abrangente, dizem diretores, pais e alunos.

O Enem é um dos nossos balizadores, mas não trabalhamos em função dele. Partimos do pressuposto de que, para finalizar o ensino médio, o aluno tem que estar preparado não só didaticamente, mas também como cidadão e pessoa. Um dos nossos diferenciais é que valorizamos uma formação com múltiplas linguagens, como música, teatro, filosofia, e isso faz bastante diferença afirma o professor Marcos Andrade, um dos quatro diretores adjuntos de ensino do CAp-UFRJ. Mas é claro que estamos felizes com o resultado no Exame Nacional. Os pais, principalmente, ficam bastante satisfeitos com isso.

Criado em 1946 como um ginásio de aplicação da Faculdade de Filosofia da UFRJ, o Colégio de Aplicação tem atualmente cerca de 750 alunos, divididos em turmas que vão da alfabetização ao ensino médio. A partir do ano 2000, o colégio abandonou a seleção de novos estudantes por meio de provas e adotou o modelo único de sorteio, realizado para crianças em idade de alfabetização e no ensino médio neste último caso, os candidatos ainda precisam passar por um exame de português e matemática para participar do sorteio. Quando há vagas ociosas em séries intermediárias, o colégio também abre sorteio.

De acordo com Andrade, a mudança no processo seletivo trouxe ao colégio uma diversidade maior de estudantes, com jovens de regiões e situações socioculturais diferentes, o que acaba enriquecendo a experiência na escola.

Presidente da Associação de Pais, Alunos e Amigos do CAp-UFRJ (Apacap), o engenheiro mecânico Cássio Kuchpil diz notar em casa os benefícios do ambiente diversificado de uma escola pública de qualidade:

Com a queda da qualidade do ensino público, você tem poucos espaços de convivência de pessoas de classes diferentes. Por ser um colégio de excelência, o CAp preserva isso. Sinto que esse aspecto tem sido bom para meu filho. Percebo, por exemplo, ele tem um ganho social maior em em relação a meu outro filho, que estuda em um colégio particular.

Por fazer parte da UFRJ, o colégio ainda permite que seus alunos tenham a oportunidade de participar de programas de Iniciação Científica, com estágios em outras unidades da universidade e na Fiocruz, e de atuar em projetos desenvolvidos paralelamente às aulas. Graduandos da univerdade também atuam na escola em atividades de pesquisa ou em contato direto com os alunos.

Estudante do CAp-UFRJ desde 2005, quando entrou na sexta série, Gustavo Ciupryk, de 19 anos, terminou o ensino médio este ano. Na última quinta-feira, ele e outros amigos se despediam da escola preparando um dos muros onde deixarão seus nomes escritos até o fim de 2014, quando novos formandos repetirão a tradição. Para ele, a boa experiência que o colégio proporciona a seus alunos é justamente resultado da sua integração com a universidade.

Estou tentando ingressar na faculdade de Direção Teatral, e esse interesse foi fruto da associação da escola com a universidade. Participei da Mostra de Teatro da UFRJ, tive contato com a área, pude tirar dúvidas com alguns professores da licenciatura e acabei abandonando a ideia de cursar Biomedicina para seguir o teatro conta o jovem. Desde cedo ficamos muito próximos da universidade por causa dos projetos e da presença dos licenciandos, e isso é muito positivo.

O bom desempenho do colégio no Enem 2012, no entanto, camufla alguns dos obstáculos que a escola vem driblando e que, nos últimos anos, parecem ter impactado a sua tentativa de manter um ensino de qualidade. No ranking do Enem 2007, por exemplo, a escola foi a quinta com melhor colocação entre as cariocas (na média da prova objetiva e da redação) e a primeira entre as públicas do país, mas, em 2009, já havia caído para o 33º lugar entre as melhores do Rio.

Entre os principais desafios do colégio está o aumento do número de professores contratados em relação aos profissionais concursados na instituição, afirma Renata Flores, professora no colégio desde 2010.

Quando há concurso para professor na UFRJ, é algo para a universidade toda, e acabamos prejudicados. Atualmente, a escola tem cerca de 40% do seu quadro compostos por professores substitutos, e isso é ruim, porque a regularidade do trabalho fica comprometida, já que esses profissionais ficam por no máximo dois anos na instituição afirma ela. Temos professores que se aposentam, e não se abrem vagas para substituí-los, só com contratados. E o trabalho feito por alguém que vai ficar só dois anos em um lugar é muito diferente daquele feito por quem vai ficar 20 anos.

Presidente da Associação de Docentes da UFRJ (ADUFRJ), Cláudio Ribeiro afirma que o drama do CAp-UFRJ é o mesmo das universidades públicas do país: investimento reduzido, o que faz com que a precariedade comece a dominar. Nesse sentido, ele diz, a redução do número de professores concursados representa um problema para o colégio, que pode ameaçar o futuro de sua qualidade.

O sucesso histórico do CAp vem justamente do fato de ele sempre ter tido profissionais com uma formação sólida e que hoje fazem malabarismo para manter o colégio entre os melhores. Os profissionais contratados dão conta do trabalho, mas em dois anos não conseguem desenvolver autonomia, não têm tempo para experimentar pedagogicamente afirma Ribeiro.

O Ministério da Educação (MEC) informou que o CAp-UFRJ tem atualmente 80 docentes efetivos da carreira do Ensino Básico Técnico e Tecnológico (EBTT), cuja finalidade é atender as escolas técnicas e colégios de aplicação nas universidades federais. Segundo o MEC, o último concurso para o colégio foi em maio de 2011, selecionando 20 professores, e este ano a UFRJ teve autorizada a abertura de concurso público para a nomeação e o ingresso de sete novos docentes, que devem começar a atuar em 2014.

Diretora-geral do CAp-UFRJ, Celina Costa ressalta, no entanto, que dos 80 docentes do colégio, são 68 os que estão presentes na sala de aula os demais cumprem licenças diversas. A diretora informa ainda que, em 2013, o colégio contou com a atuação de 45 professores substitutos.

Para Cássio Kuchpil, outro ponto que poderia ser melhorado no colégio de aplicação é a pouca abertura que a direção dá a pais que queiram se envolver mais nas decisões pedagógicas da escola. Prestes a terminar seu mandato na presidência da associação de pais, o engenheiro lamenta que, ao contrário do que acontece em outros colégios de aplicação, os responsáveis pelos alunos não têm representatividade formal dentro do colegiado do CAp-UFRJ.

A gente tem encontrado muita resistência para implentar essa participação (dos pais). Há dois anos foi iniciada uma comissão, mas, por diversos motivos, acabou não andando. Seria um grande ponto de melhoria, já que existem estudos que apontam a importância do envolvimento dos pais na escola acredita.

O diretor-adjunto Marcos Andrade reconhece que a escola ainda tenta adotar um fórum participativo interno com uma presença mais ativa dos pais, mas diz que isso não tem sido possível devido à urgência de problemas mais recentes da instituição, como a greve dos professores de 2012. No entanto, ele ressalta que a diretoria procura ter uma relação próxima com os familiares de alunos e que o colégio não é contra a maior presença dos pais nas decisões da instituição.

Por último, a esses fatores, soma-se a infraestrutura limitada do CAp, que ocupa um terreno na Lagoa cedido pela prefeitura desde 1948. Em 2005, as aulas no colégio chegaram a ser suspensas temporariamente devido ao desabamento da parede de uma sala de aula, depois de um temporal. Ainda que hoje o prédio esteja em melhores condições, inclusive com a recente instalação de ar-condicionado nas salas de aula, Andrade afirma que o colégio não tem mais para onde crescer no atual terreno.

De acordo com a diretora-geral, Celina Costa, a reitoria da UFRJ tem na solução para o problema a construção de um prédio próprio para a escola na Ilha do Fundão, cujo projeto já está previsto no plano diretor da universidade, mas que ainda não tem previsão para o início das obras. A questão, no entanto, não é consenso entre pais e alunos.

Obviamente, quando você tem uma estrutura melhor, os alunos rendem mais por se sentirem confortáveis enquanto estudam. A mudança para o Fundão também me parece positiva porque integraria a escola ainda mais à universidade. Mas muitos alunos e pais resistem a essa ideia, devido à distância para o Fundão e à insegurança de lá. A escola está há muitos anos aqui na Lagoa, e, ainda que tenha um perfil diversificado de alunos, a maioria deles é da Zona Sul opina Ian Henrique da Costa, de 18 anos, recém-formado no ensino médio do CAp.

Apesar da resistência de alguns quanto à mudança, Celina Costa dá como certa a sua ocorrência.

Já está decidido, ainda que não haja uma previsão de quando. O CAp existe principalmente para formar professores, e os professores têm aulas no Fundão. Para cumprir nosso objetivo, temos aulas no ensino médio. No entanto, somos cobrados pela universidade não só pelo desempenho que temos com os alunos do ensino médio, mas principalmente por nossa produção científica e no desempenho com os alunos de ensino superior e de pós-graduação afirma a diretora-geral.

( O Globo – 03/12/2013)

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